

Ao longo das últimas duas décadas, a transformação digital promovida por bancos tradicionais, fintechs e plataformas tecnológicas remodelou a indústria financeira global, alterando a forma como consumidores acessam crédito, pagamentos, investimentos e serviços bancários. Estudos recentes da McKinsey apontam que a inteligência artificial avança rapidamente de uma ferramenta de apoio para uma nova camada de intermediação financeira, com potencial para se tornar a principal interface entre consumidores e instituições financeiras nos próximos anos.
Linconl Rocha, especialista em meios de pagamento, inovação financeira e presidente da Pagos – Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos, avalia o conceito M.AI.Bundling (My AI Bundling), desenvolvido em seu primeiro livro.
A proposta parte de uma premissa contundente: o futuro das finanças não estará na escolha do melhor banco, mas na capacidade de um agente de inteligência artificial representar o consumidor e fazer as instituições competirem entre si nos bastidores.
"O poder atravessou o balcão. Pela primeira vez na história, quem monta o pacote financeiro deixa de ser uma instituição e passa a ser o próprio consumidor, por meio de um agente de inteligência artificial que trabalha exclusivamente em seu favor", afirma Linconl Rocha.
Segundo o executivo, a evolução histórica do setor percorreu três grandes fases: o bundling, quando os bancos tradicionais concentravam todos os serviços financeiros em um único ecossistema; o unbundling, impulsionado pelas fintechs especializadas; e o rebundling, marcado pelo surgimento dos superapps. Agora, uma quarta etapa começa a emergir.
"O M.AI.Bundling inaugura uma mudança estrutural. O consumidor não precisará mais abrir aplicativos bancários, comparar produtos ou navegar por plataformas financeiras. Sua única interface será a inteligência artificial, que pesquisará, negociará e selecionará as melhores condições disponíveis em todo o mercado", explica.
A infraestrutura necessária para essa transformação já está praticamente construída no Brasil. O Open Finance, implementado pelo Banco Central a partir de 2021, criou as bases regulatórias para o compartilhamento seguro de dados entre instituições financeiras, permitindo a interoperabilidade necessária para a atuação dos chamados agentes autônomos.
Ao mesmo tempo, a indústria brasileira de pagamentos vive um momento de forte expansão. Segundo projeções da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o setor deve ultrapassar, pela primeira vez, a marca de R$ 5 trilhões em transações em 2026, registrando crescimento entre 9,5% e 11,5% em relação ao ano anterior. Os hábitos dos consumidores também refletem essa aceleração tecnológica. De acordo com a pesquisa, pagamento por aproximação, por exemplo, passou de 3,9% das compras presenciais em setembro de 2020 para 72,8% em setembro de 2025, evidenciando a rápida assimilação de novas tecnologias pelos brasileiros.
Para Linconl Rocha, esses movimentos demonstram que o mercado já está preparado para a próxima etapa evolutiva.
"A inteligência artificial deixou de ser uma aposta para se tornar infraestrutura. O debate já não é mais se ela será adotada nos processos corporativos, mas quando ela será obrigatória na demanda por parte do cliente. O consumidor está mudando muito mais rápido do que o preconceito corporativo observado".
Os dados internacionais corroboram essa percepção. Segundo o relatório "State of AI in Financial Services", da NVIDIA, citado pela Finsiders Brasil, e baseado em uma pesquisa com aproximadamente 600 profissionais do setor financeiro em diversos países, a adoção da inteligência artificial já gera resultados mensuráveis para as instituições financeiras, incluindo aumento de receitas, redução de custos e ganhos de eficiência operacional.
Contudo, a nova era também traz desafios inéditos. Para Linconl Rocha, a principal discussão dos próximos anos será a governança desses agentes inteligentes.
"Se a inteligência artificial passa a decidir em nome do cliente, surge uma pergunta inevitável: ela trabalha para o consumidor ou para quem a desenvolveu? O diferencial competitivo não será apenas construir a melhor IA, mas provar, de forma transparente e auditável, que ela está do lado certo da mesa".
A reflexão, segundo ele, não se limita às instituições financeiras, mas alcança toda a cadeia de pagamentos, bancos digitais, fintechs, adquirentes, empresas de tecnologia e reguladores.
"Assim como muitos acreditavam que ninguém compartilharia suas informações financeiras com uma plataforma digital há dez anos, hoje muitos acreditam que ninguém confiará sua vida financeira a uma inteligência artificial. A história mostra que paradigmas envelhecem muito mais rápido do que imaginamos", acentua.
Na avaliação do executivo, a indústria financeira mundial entra em uma nova fase, em que a disputa deixará de ser pela atenção do consumidor e passará a ser pela preferência do seu agente inteligente.
"O banco do futuro talvez seja aquele que o cliente nunca verá. A instituição continuará existindo, mas nos bastidores, competindo silenciosamente para ser escolhida por uma inteligência artificial que representa exclusivamente os interesses do consumidor", conclui.
Sobre Linconl Rocha
Linconl Rocha é especialista em fintechs, inovação financeira e meios de pagamento. Preside a Pagos – Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos e é autor do conceito M.AI.Bundling, apresentado em seu próximo livro, "As Quatro Dobras, da Revolução Industrial à Senciência", que analisa a evolução histórica mundial, desde a indústria financeira e o impacto da inteligência artificial na redefinição da relação entre consumidores e empresas.
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